Naufrágio Orgânico (Organic Wreck) by Celso Vegro and Eduardo Heron – in portuguese (click on translate)

January 24, 2013 in Uncategorized

Antes que se renegue a estes analistas, alertamos que desde sempre prestigiamos o movimento orgânico, participando, ainda quando estudante de agronomia (no caso do primeiro autor), do grupo de agricultura alternativa e, depois disso, acompanhando os primórdios de organização da Associação de Agricultura Orgânica (AAO/SP). Sempre que possível adquiro produtos orgânicos e, até poucos dias atrás, havia café orgânico em casa para o consumo diário. Ademais, recentemente facilitei contatos para aquisição de café orgânico por parte de empresa de suprimentos para a indústria de cosméticos. Todavia, esse comprometimento pessoal não impede que se procure elucidar as aparentes “esquisitices” no mercado de café orgânico brasileiro.

A partir de 2005, a OIC implantou nos certificados de origem campos para atribuições específicas do produto, tornando-se possível apreciar a evolução das trocas internacionais dessa especialidade. Sendo a declaração obrigatória para os cafés orgânicos e voluntária para as demais certificações (exclusivamente para os países produtores membros da organização), as estatísticas consolidadas não são totalmente precisas, todavia é a melhor informação disponível. Considerando-se os negócios envolvendo o café orgânico, entre 2005-2012, constata-se que esse mercado quase que triplicou a quantidade transacionada (Figura 1).

FIGURA 1 – Quantidade Exportada, Cafés Orgânicos, Países Produtores Membros da Organização, 2005-2011 e jan./out. de 20121.


Fonte: Organização Internacional do Café (OIC), 2012.

Enquanto em 2005 os embarques de cafés orgânicos contabilizaram pouco mais de 364 mil sacas, em 2012 (jan.-out.) esse montante aproximou-se de 1 milhão de sacas. Considerando-se os doze meses desse último ano é provável que as exportações totais tripliquem frente a quantidade inicial. Entretanto, a participação no mercado do café orgânico brasileiro nesse mesmo período apenas dobrou saltando de pouco mais de 10 mil sacas para apenas 20,6 mil entre 2005 e 2012, respectivamente.

Pelos dados relacionados pela OIC, na trajetória de concorrentes constata-se o caso de Honduras que, em 2005, exportava pouco mais de 12 mil sc e em 2012 (jan.-out.) contabilizava mais de 287,5 mil sacas! Querem mais surpresas: Papua Nova Guiné exportava, em 2005, cerca de 12,7 mil sacas, saltando para 29,9 mil em 2012, em ambos os períodos mais que o celebradíssimo país líder na produção, consumo e exportação! Sabe-se que o Peru é outro grande exportador de orgânico, porém não membro da OIC e por esse motivo não se dispõe de dados sobre suas vendas.

Em 2012 (jan./out.) os negócios internacionais com café orgânico somaram mais de US$230 milhões, praticamente, repetindo o resultado apurado em 2011 quando se ultrapassou os R$272 milhões. Comparações com outros anos podem gerar distorções na medida em que muitos países exportadores declaram, nos respectivos certificados de origem, as quantidades embarcadas sem, porém, apontar o preço pelo qual o produto foi comercializado. De qualquer modo, tomando-se 2009 (ano do colapso macroeconômico global) os valores apurados nesse mercado mais que triplicaram. Como nossas exportações não se expandiram no mesmo ritmo que os demais concorrentes nesse mercado, o resultado cambial obtido pelo Brasil com as o café orgânico transitaram entre os US$7 a US$8 milhões nos dois últimos anos.

Dessas informações surgem questionamentos: o que haveria de errado/distorcido no agronegócio café orgânico. Quais razões poderiam explicar a diminuição da demanda relativa pelo grão brasileiro, ou melhor, que elementos subtrairiam competitividade dos sistemas de produção orgânico de café?

A análise dos preços médios pagos pelos cafés orgânicos evidencia que aqueles praticados para com o produto brasileiro foram sistematicamente mais elevados que a média para os demais concorrentes. Em 2010, por exemplo, a média dos preços para os volumes globais (incluindo o Brasil) foi de US$234,54/sc, enquanto que o proveniente do país alcançou os US$305,24/sc, ou seja, ágio de US$70,70 (FIGURA 2).

FIGURA 2 – Preços Médios por Saca, Cafés Orgânicos, Países Produtores Membros da Organização, 2005-2011 e jan./out. de 2012


Fonte: Organização Internacional do Café (OIC), 2012.

Comparativamente, os elevados preços médios do café orgânico brasileiro exportado explicam, possivelmente, o modesto crescimento dos embarques. Embora o contexto internacional seja francamente demandante para essa especialidade de bebida, os cafeicultores brasileiros associados aos agentes de comercialização não são capazes de se posicionar competitivamente nesse mercado.

Não existem dados públicos sistematizados para o consumo de cafés orgânicos no mercado brasileiro. Pesquisa indica que a demanda doméstica por café (todos os tipos) cresce sustentadamente há vários anos2. Tal fenômeno, apenas por hipótese, poderia espelhar a demanda pelos orgânicos. Porém parece não ser esse o caso, pois, normalmente, nos mercados de matérias primas agrícolas, maior mercado interno fortalece a competitividade desse mesmo produto no mercado externo (em quantidade e preços), decorrente dos ganhos de escala e/ou introdução de inovações nos sistemas produtivos.

Os preços médios praticados para os mercados interno e externo, exibem diferenciais bastantes expressivos, tendo alcançado os R$227,46/sc em 2009 (Tabela 1). Tal fenômeno apontaria para uma procura e preferência crescente pela exportação dos lotes de grãos orgânicos, porém conforme os dados apontam, não tem havido grandes saltos nas quantidades exportadas desse produto específico. Se a sinalização de preços internacionais não tem sido suficiente para alavancar as exportações, teriam os menores preços praticados para o abastecimento doméstico tido essa capacidade?

TABELA 1 – Preço Médio Recebido pelos Cafeicultores, de Café Orgânico, Mercados Interno e Externo, Estado de Minas Gerais, 2007 a 2010

(em R$/sc)

*Refere-se à média dos preços diários recebidos pela COOPFAM, convertidos pela cotação diária do dólar (comercial). Os valores diários, bem como a cotação diária do dólar utilizadas na conversão não foram cedidos pela cooperativa. Fonte: Adaptado a partir de TURCO, et al (2012)3.

Na produção orgânica as vantagens econômicas capturadas pelos cafeicultores foram relevantes conforme relata TURCO et al (2012) (Tabela 2). Os patamares de preços recebidos pelos cafeicultores orgânicos rivalizam com aqueles obtidos por outros cafeicultores especializados no produto gourmet (bebida mole, cereja descascado e lavados). Mediante esses prêmios os orgânicos, ao menos nesse estudo de caso, obtêm rentabilidade satisfatória e acima de seus congêneres convencionais.

Essa sinalização de preços favorável aos orgânicos deveria, ainda que potencialmente, incentivar essa modalidade de sistema produtivo. Como reflexo esperado desse fato haveria maior oferta do produto com queda nas suas cotações. Eventualmente, também se observaria maior disponibilidade para transações internacionais, que estariam registradas nos certificados de origem dos embarques brasileiros. Entretanto, não é isso que se constata no banco de dados da OIC.

TABELA 2 – Preço Médio Recebido pelos Cafeicultores, de Café Orgânico e Convencional, Estado de Minas Gerais, 2007 a 2010

(em R$/sc)

*Refere-se à média dos preços diários recebidos pela COOPFAM, convertidos pela cotação diária do dólar (comercial). Os valores diários, bem como a cotação diária do dólar utilizadas na conversão não foram cedidos pela cooperativa. Fonte: Adaptado a partir de TURCO, et al (2012)3.
A cafeicultura orgânica, aparentemente, não deslancha, apesar dos incentivos de preços e melhor rentabilidade constatada em estudos exploratórios sobre a temática. Outras certificações4 com menos tempo de atividades que o orgânico operam na casa do milhão de sacas sob tais rotulagens.

As investigações necessitam prosseguir. Os custos com a certificação orgânica para acessar o mercado externo constitui, obviamente, uma barreira ao incremento desse mercado. Demais limitações como a produtividade menos pujante dessas lavouras frente suas congêneres convencionais, outra possível barreira. Escala produtiva e elevada dependência do trabalho manual, também, contribuem para esse ambiente de baixo crescimento para o segmento. Impossível imaginar o desenvolvimento regional e local na agricultura que prescinda da agricultura orgânica, especialmente naquelas porções do território em que a agricultura familiar é majoritária, porém, A ausência de instituições (cooperativas) que coordenem essa cadeia também5. A realidade é que há um descolamento do café orgânico brasileiro frente a dinâmica do mercado internacional, passível de reversão desde que com a aplicação de nossa expertise em assuntos cafeeiros. Missão impossível, felizmente é temática hollywoodiana.

1 Dados disponíveis em: www.ico.org.
2 São amplamente conhecidos os dados de consumo interno divulgados pela ABIC.
3 TURCO, Patricia H. N. et al. EFICIÊNCIA ECONÔMICA NO SISTEMA DE CAFÉ ORGÂNICO: estudo de caso dos cooperados da COOPFAM. Informações Econômicas, SP, v. 42, n. 3, maio/jun. 2012. Disponível aqui.
4 UTZ já contabiliza volume de sacas certificadas acima do milhão e a Rain Forest mais de 600mil.
5 O modelo a COOPFAM ainda não foi reproduzido em outros cinturões cafeeiros do país.

FONTE: http://www.cafepoint.com.br/mercado/relatorios-mensais/naufragio-organico-82095n.aspx

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